O ministro da Fazenda, Guido Mantega, propôs ao empresariado um pacto pela estabilidade, para blindar a economia contra os perigos de um ano de eleições.
É preciso, segundo afirmou, manter a economia em funcionamento normal, sem cair em provocações ou ameaças de risco.
Não disse de onde poderão vir as ameaças, mas tratou logo de afirmar o compromisso do governo com a estabilidade fiscal e monetária. Então, se o perigo não está no governo, deve estar na oposição, nos mercados especulativos ou em ambos.
Mas a especulação só causa danos importantes quando se estende por algum tempo. Isso ocorre apenas quando a inquietação no mercado tem alguma base em fatos. Isso ocorreu em 2002, quando a candidatura do petista Luiz Inácio Lula da Silva começou a deslanchar.
O PT havia apoiado uma consulta popular sobre a dívida pública e vários petistas de alto escalão haviam afirmado ou insinuado, mais de uma vez, a conveniência de um calote oficial.
Além disso, o partido havia combatido o Plano Real e todas as medidas mais sérias a favor da estabilização dos preços e da boa administração das contas públicas.
Houve quem atribuísse aos governistas da época uma ação terrorista contra o candidato da oposição. Mas os petistas haviam feito o suficiente para justificar as preocupações. E agora, de onde podem vir as ameaças?
À primeira vista, as posições se inverteram. O presidente Lula e seus principais auxiliares tentam, pelo menos, construir essa imagem, apresentando o governo como fiador da estabilidade e tentando colar o rótulo da seriedade na candidata lançada pelo Palácio do Planalto.
A oposição contribui generosamente para dar credibilidade a essa mensagem. O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, prestou notável serviço ao governo ao prometer, numa entrevista, novas políticas de juros e de câmbio, no caso da eleição de um tucano.
É uma situação quase cômica. Os líderes do empresariado vivem reclamando, em público, dos juros altos e do real valorizado. Mas, na realidade, sabem apreciar a estabilidade e a previsibilidade garantidas pela política do Banco Central (BC).
Além do mais, o presidente Lula agiu sempre como se o BC fosse autônomo, embora sem impedir que seu ministro da Fazenda faça as declarações e insinuações que costuma fazer contra a política monetária. Por que o presidente agiu dessa forma até agora? Certamente não foi por tolice, fraqueza ou ingenuidade política e os empresários sabem disso.
Talvez não seja fácil apresentar a candidata do Planalto como igualmente comprometida com a atual política de controle da inflação. Mas o presidente Lula com certeza tentará cuidar desse detalhe.
Se tudo continuar nesse passo, caberá ao candidato da oposição, seja quem for, o custo de convencer o público de seu compromisso com a seriedade. Será a perfeita inversão do quadro de 2002.
Naquele ano, o candidato Lula teve de apresentar uma Carta ao Povo Brasileiro para tentar eliminar os temores de uma política irresponsável e de um retrocesso aos tempos da instabilidade.
Mas ainda há uma diferença relevante. O presidente Lula tem dado espaço ao BC para executar sua política anti-inflacionária, mas não tem agido com o mesmo cuidado quando se trata da gestão das contas públicas.
O ministro da Fazenda pode afirmar quanto quiser o compromisso com a estabilidade fiscal, mas não pode negar com a mesma facilidade o inchaço da folha de salários do setor público, a expansão perigosa dos gastos improdutivos, a distribuição de bondades eleitorais e a ineficiência na execução dos investimentos custeados pelo Tesouro.
Com mais competência do que a oposição, o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro Neto, devolveu a bola jogada pelo ministro Mantega. Elogiou a proposta do pacto de estabilidade e logo emendou:
A economia brasileira não pode ser contaminada por tentações próprias de ano eleitoral, como expansão imoderada de gastos e iniciativas demagógicas na área trabalhista (...).
É fundamental que não se agravem ainda mais os custos de manutenção da máquina pública. O País atravessou a crise sem maiores danos, mas falta superar importantes problemas, como os custos sistêmicos, observou.
Um discurso como esse deveria servir de inspiração para o candidato da oposição.
Fonte: Editorial jornal O Estado de S. Paulo.