O jornalista Thomas Friedman, autor do best-seller "O Mundo É Plano", conta que até pouco tempo atrás dizia às suas filhas para não deixar comida no prato porque muitas crianças passavam fome em países como China e Índia.
Agora, afirma ele, "digo a elas para terminar o dever de casa com afinco porque muita gente na China e na Índia está faminta por seus futuros empregos".
A mudança no discurso de Friedman, contada pelo empresário indiano Nandan Nilekani no livro lançado em 2009 Imagining India (em tradução literal, "Imaginando a Índia"), ilustra a transformação pela qual os dois países passaram nas últimas décadas. Nilekani, um dos fundadores da empresa de tecnologia Infosys e conhecido como uma versão indiana de Bill Gates, é ele mesmo a própria encarnação dessa nova realidade.
A Infosys foi criada nos anos 80 com capital de 250 dólares e hoje é uma multinacional com vendas de 4 bilhões de dólares e presença em 27 países. Nilekani, de 54 anos, já se afastou do dia a dia da empresa.
Com mais tempo, dedicou-se nos últimos dois anos a produzir um livro que não apenas relatasse suas próprias experiências mas expressasse a própria Índia contemporânea.
Ele conversou com dezenas de acadêmicos, empresários e membros do governo para relatar como o país superou a apatia econômica de décadas e para apontar desafios futuros. Para escrever o prefácio, Nilekani convidou o próprio Friedman, um dos mais argutos observadores das mudanças enfrentadas pela Índia e de quem o empresário se tornou amigo nos últimos anos.
Com uma população de 1,2 bilhão de pessoas que vem crescendo ao ritmo médio de quase 2% ao ano nas últimas duas décadas, a Índia já tem o segundo maior estoque de trabalhadores qualificados do mundo, de acordo com Nilekani (o primeiro está na China).
A cada ano são formados 2 milhões de universitários indianos que falam inglês. Entre eles, 300.000 engenheiros, 15.000 advogados e 9.000 ph.Ds. Com uma geração crescente de empreendedores e com taxas de crescimento econômico de 7% ao ano, o país representa cada vez mais uma ameaça real para países ricos.
A pujança indiana, no entanto, não traz apenas uma massa de novos concorrentes para o mundo desenvolvido mas também um novo contingente de consumidores para companhias ocidentais. Nilekani lembra que a classe média indiana, composta de 300 milhões de habitantes, já é maior que a população americana e equivalente a dois terços da União Europeia.
De acordo com a consultoria de estratégia McKinsey, se a Índia mantiver seu crescimento, a renda média familiar deverá triplicar nas próximas duas décadas, o que fará do país o quinto maior mercado de consumo do mundo até 2025 -- um salto da 12a posição que ocupa atualmente. "Uma força de trabalho talentosa, combinada com capital e investimentos abundantes, nos proporciona imensas oportunidades para criar e inovar", afirma o autor.
O retrato da pujança, porém, é uma representação recente e ainda parcial do país. Nilekani recua até o final dos anos 40 para mostrar como os governantes indianos controlaram com mão de ferro o setor privado.
Segundo ele, tanto controle foi uma espécie de efeito rebote dos anos de colonização inglesa, que terminaram em 1947. "Nos nossos primeiros anos (de independência), duas forças forjaram nossas políticas ferozmente contrárias aos negócios: a determinação de livrar o país das instituições que dominavam a Índia colonial e o entusiasmo em abraçar o que parecia ser a ordem mundial ascendente, o socialismo", diz o autor.
A virada começou em 1991, em meio a uma crise financeira, quando o país passou por reformas econômicas liberalizantes que iniciaram uma fase de desenvolvimento (embora em algumas regiões ainda apresente níveis de pobreza e desnutrição superiores aos da África subsaariana).
No epicentro dessa arrancada está uma geração de empreendedores do setor de informática, da qual o autor faz parte, e que se concentra em Mumbai e Bangalore.
Muitos foram formados em alguma das 13 universidades técnicas criadas pelo governo a partir dos anos 50, como o Indian Institute of Technology, em Mumbai, onde se formou Nilekani -- eis aí uma rara boa herança do regime totalitário.
O autor usa a própria trajetória como empreendedor para relembrar como a vida era difícil antes das reformas. Em 1984, a Infosys pediu uma licença para importar um disco rígido de 150 megabytes, grande para a época. Seis meses depois, quando a permissão foi concedida, já havia sido lançado um modelo de 300 megabytes, 15% mais barato.
A modificação do pedido de licença para comprar o modelo mais recente exigiu outros oito meses. Essas limitações acabaram abruptamente quando a Índia desmantelou a burocracia para importações e passou a facilitar o comércio exterior.
Hoje, já é uma economia mais aberta que a do Brasil. Até o ponto de virada, as estatais e os cartéis da economia indiana eram avessos à informatização. Mas, com a abertura de vários setores domésticos à concorrência estrangeira, a resistência acabou.
A automatização melhorou desde serviços bancários até a venda de passagens de trem. No governo, eleições e serviços públicos foram informatizados. Num país ainda predominantemente rural, a tecnologia redefiniu as regras do agronegócio.
Até pouco tempo atrás, o camponês indiano ficava à mercê de intermediários quando comercializava sua produção. Agora, com quiosques de serviços de internet espalhados pela área rural, a renda triplicou, já que ele mesmo pode acompanhar o valor de mercado de sua produção e definir compradores.
A concorrência de empresas privadas com serviços públicos falidos está mudando a face do país. Atualmente, nas favelas de Mumbai, para cada estudante em escola pública há outros dois cursando escolas privadas de baixo custo (o grupo educacional Spark, por exemplo, espalhou pelo país 10.000 escolas que cobram mensalidade de apenas 2 dólares por aluno). Uma vantagem dos colégios particulares é que o ensino de inglês é de melhor qualidade.
A Índia já tem hoje quase 300 milhões de habitantes que falam o idioma. Qualquer preconceito que ainda existisse contra a língua dos colonizadores (o inglês foi imposto como língua oficial meio na marra, também para evitar o conflito com as minorias étnicas que surgiriam caso prevalecesse o hindi) foi superado pelas vantagens de aprendê-la.
Para o setor de serviços, essa democratização do inglês representa uma bênção, já que hoje a Índia se tornou a fornecedora preferencial de companhias americanas que terceirizam atividades como call centers e contabilidade.
Nilekani não ignora os problemas que persistem mesmo em meio à pujança. Alguns estão relacionados à própria formação do país, construído sobre uma colcha de retalhos étnica. A Índia tem 22 línguas oficiais e centenas de dialetos.
É ameaçada por rancores profundos entre hindus, muçulmanos e sikhs, seguidores de algumas das principais religiões do país -- e convive com movimentos separatistas e partidos revolucionários. Mas também sofre da inépcia de governantes no que se refere à infraestrutura e a reformas mais profundas.
É preciso, por exemplo, percorrer estradas quase intransitáveis para chegar à sede de padrão internacional da Infosys, nos arredores de Bangalore. Nilekani conta que os visitantes de países ricos que enfrentam o caminho esburacado para chegar até lá costumam questionar como padrões tão diferentes podem coexistir no mesmo país. Sem ter à mão uma explicação fácil e convincente, ele costuma balbuciar: "Vontade política". Segundo o empresário, não faltam recursos, tecnologia ou conhecimento -- apenas determinação do governo.
Frequentemente, esses visitantes perguntam por que Nilekani, um empreendedor de sucesso, não se candidata. "Por ser um empresário, minha imagem está longe da dos políticos mais votados na Índia, que se apoiam na retórica populista", ele costuma responder. Em muitos pontos, brasileiros e indianos estão mais próximos do que costumamos imaginar.
Autor: Eduardo Pegurier
Email do Autor: n.d.
Fonte: Revista Exame