Para o economista do Goldman Sachs, países europeus não devem entrar em default, mas situação fiscal ainda vai causar preocupação por algum tempo.
O'Neill: "investidores brasileiros precisam perceber as fragilidades dos EUA e da Europa".
A crise fiscal que abate a Europa é preocupante, mas não deve arrastar nenhum país para a moratória. A avaliação é do chefe do departamento de pesquisas econômicas do banco Goldman Sachs, Jim O'Neill. O economista acredita, porém, que será necessário muito mais esforço das nações que se encontram no epicentro das preocupações globais para que os problemas sejam superados.
Célebre por criar, nos anos 90, a sigla Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) para designar o grupo de países emergentes que passariam a ocupar uma posição de destaque no panorama mundial, O´Neill critica a criação de uma outra sigla - o PIGS, o grupo de países formado por Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, e que estaria no cerne das turbulências européias. Para o economista americano, o mais adequado é localizar a crise nos países mediterrâneos.
Para os investidores brasileiros, que assistem à forte queda da Bovespa neste início de ano, O'Neill reafirmou sua crença no potencial do país, mas adverte que é preciso aprender que, quando se trata de mercado de ações, "não há nada parecido com uma linha reta". Veja, a seguir, a entrevista concedida ao Portal EXAME por e-mail, enquanto O'Neill prepara-se para uma viagem de uma semana a Hong Kong (Continua...).
Portal EXAME - Há um risco efetivo de default dos países europeus? O bloco agora conhecido como PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) é o que desperta maior preocupação. Quão preocupante é a condição desses países?
Jim O'Neill - Acredito que é muito inapropriado chamar esses países de PIGS. Eu prefiro chamá-los de "Clube Med" [em referência ao Mar Mediterrâneo]. Neste sentido, a Irlanda não deveria ser agrupada com eles. Eu acredito que o default de um país do "Clube Med" não é provável, mas é totalmente concebível que os mercados ainda vão se preocupar muito com isso. No cerne da questão, está o desejo dos membros "germânicos" da União Européia de pressionar o bloco na direção de uma estrutura mais forte e confiável no campo da política fiscal. É provável, portanto, que a situação piore antes de melhorar.
Portal EXAME - Nesta semana, a Comissão Européia aprovou o plano de recuperação econômica da Grécia. O senhor acredita que esse plano vai funcionar? Ou a Grécia poderá pedir ajuda aos outros países europeus?
O'Neill - Eu acredito que a Grécia precisa de ainda mais disciplina fiscal.
Portal EXAME - Portugal também está tentando aprovar um plano semelhante. O que o senhor acha da iniciativa portuguesa?
O'Neill - Penso que Portugal precisa fazer mais do que está propondo.
Portal EXAME - As bolsas estão caindo em todo o mundo, devido à preocupação com a crise européia. Isso é um sinal de que essa crise está se alastrando globalmente?
O'Neill - A crise européia não é a única questão. Provavelmente, o fator que realmente causou a queda das bolsas foi o surpreendente apoio do presidente Obama ao plano de Paul Volcker. Isso é negativo, porque o plano não traz nenhuma grande esperança. É importante também lembrar que, dois dias antes do apoio de Obama a Volcker, o índice Standard & Poor's da Bolsa de Nova York bateu um novo recorde, superando 1.150 pontos(Continua...).
Portal EXAME - A bolsa brasileira também está caindo fortemente. Se os fundamentos da economia são sólidos, os investidores não deveriam estar mais confiantes?
O'Neill - A bolsa brasileira está caindo porque entramos num período de redução global do risco.
Portal EXAME - A atual desvalorização da Bovespa mostra que o Brasil vivia uma bolha?
O'Neill - Não. Não se trata de uma bolha. O Brasil está se transformando em um país diferente, mais substantivo e forte.
Portal EXAME - Os investidores brasileiros devem conter a euforia e se tornar mais conscientes da fragilidade econômica global?
O'Neill - No que se refere aos problemas da Europa e dos Estados Unidos, com certeza sim.
Portal EXAME - Que lições os brasileiros podem tirar desse episódio?
O'Neill - Minha resposta mais honesta - e não é uma piada - é que os investidores precisam perceber que os mercados sobem e descem, e que não há nada parecido com uma linha reta neles.